PÁGINAS VIRADAS DE UM PASSADO NÃO ULTRAPASSADO: O HOLOCAUSTO. Monica Yvonne Rosenberg é herdeira e testemunha de uma das maiores tragédias coletivas da história da humanidade – o holocausto judeu durante a brutal ditadura nazista na Alemanha de Hitler. Seu testemunho pungente, sensível e perspicaz é uma forma ao mesmo tempo profunda e delicada de lidar com esse tipo de memória. As lembranças são terríveis e quem não viveu os momentos pelos quais ela e seus ancestrais passaram pode ter a ilusão de que aquela experiência foi uma exceção à regra, uma anomalia que precisa ser relegada ao esquecimento, mas o oblívio nada purga nem redime. Os escritos deste livro impressionam pela naturalidade com que a autora narra a brutalidade, a frieza e a desumanidade dos algozes, sim, mas como algo que faz parte do cotidiano: a dolorosa transformação da dor e do medo em rotina, o convívio com o monstro que encurrala os inocentes no escritório, em casa, na rua, no café e até mesmo no mais íntimo de suas almas e de seus corações. Como outra judia, a filósofa alemã Hannah Arendt, a narradora destes quadros do cotidiano de antes do conflito, da guerra propriamente dita e de depois do armistício traz para a vida corriqueira, que flui nas padarias, nas salas de estar e nas platéias das casas de entretenimento, o retrato em movimento da banalização do Mal e da persistência silenciosa e quase imperceptível do Bem, que brota no meio do sofrimento como uma flor no pântano, um quase invisível e aparentemente indefeso arbusto que nasce e persevera nas fendas dos monólitos.
José Nêumanne Pinto, poeta, escritor, jornalista e comentarista de rádio e televisão.